KATARINA MORAES
Raynéia Gabrielle Lima, 30 anos, foi assassinada no último dia 23 na cidade de Manágua, na Nicarágua. Um tiro no peito cessou a vida da estudante pernambucana de medicina em razão à uma crise sociopolítica do país mais pobre da América Central, segundo ranking da Revista Forbes.
A estudante foi morta pelo ex-militar Pierson Gutierrez Solis, que de acordo com o jornal local La Prensa, disse ter considerado a atitude da jovem suspeita e que se sentiu ameaçado, o que culminou em seu assassinato enquanto dirigia de volta para casa após a residência médica. Em Pernambuco, Raynéia foi sepultada pela família que não a via há quatro anos, vestida com o jaleco e com o diploma honorário da Universidade Americana em Manágua (UAM), onde cursava o sexto e último ano.

Raynéia Gabrielle. Foto: Reprodução/Facebook
O caso tornou-se conhecido em todo o estado - que dirá, país -, mas Raynéia não foi, e nem será, a única vítima do governo Ortega. Em tentativas de calar os críticos, já foram mortas - de acordo com testemunhas e grupos de direitos humanos - mais de 300 pessoas em eventos distintos - inclusive crianças e adolescentes.
A morte da estudante pode impedir que a comunidade brasileira continuasse de olhos fechados. Entretanto, para que haja uma real conscientização, é necessário entender a atual situação da Nicarágua, que teve início há mais de 40 anos.
Governo Ortega-Murillo

O presidente Daniel Ortega e sua esposa, a Vice Rosário Murillo. Foto: Randall Campos/Reuters
Ex-guerrilheiro de 72 anos, Daniel Ortega, é o grande responsabilizado pela atual situação da Nicarágua. Ele integrou a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) em 1962, que ajudou a pôr fim em 1979 na ditadura instaurada no país desde 1936, encerrando a dinastia dos Somoza, que governou o país durante 43 anos.
Ortega foi acusado de terrorismo e preso durante sete anos no governo de Anastasio Somoza Debayle pelas suas manifestações.
Seus opositores, alguns ex-guerrilheiros que lutaram ao seu lado, acusam-no de assemelhar-se ao antigo ditador Anastásio Somoza, a quem combateu, além de autoritarismo e da perpetuação da família no poder. O nicaraguense mudou a Constituição a fim de eliminar o limite de mandatos. Sua mulher, Rosário Murillo, é a atual vice-presidente.
A Nicarágua é uma república presidencialista onde o Presidente e o Vice-Presidente são eleitos por voto popular para um mandato de cinco anos. Assim, o presidente foi eleito pela primeira vez em 1984 com o apoio de cerca de 70% dos eleitores. Mas pelo fraco crescimento econômico e a desilusão política, Ortega perdeu a presidência em 1990 para uma antiga companheira de guerrilha, Violeta Barrios de Chamorro.
Ortega tentou se eleger nos próximos anos, porém só conseguiu voltar ao poder em 2006, com 38% dos votos, e foi reeleito em 2011, permanecendo no poder até hoje. A economia nicaraguense cresceu acima da média regional e, segundo o Banco Mundial, a pobreza teve uma redução de 13% durante seus anos de governo.
Essa é a causa, segundo analistas, pelas quais Ortega tem sido poupado de críticas como as direcionadas à Venezuela e a Cuba.
Atualmente, Ortega mora na antiga casa de Somoza e montou um sistema de segurança que proíbe a livre circulação pelo bairro onde mora e a instauração de toque de recolher e policiamento nas redondezas.
Previdência

Onda de protestos assolam o país da América Central. Foto: Reprodução
O estopim para as ondas de protestos no país foi a aprovação de uma reforma previdenciária do Instituto Nicaraguense de Seguridade Social em Abril, que previa um imposto de 5% sobre as aposentadorias.
Os manifestantes pedem o fim do mandato Ortega-Murillo, que alegou não estar disposto a renunciar ou convocar eleições antecipadas. Eles relatam que as forças de segurança têm empregado força excessiva, usando munição contra pessoas desarmadas.
21 países do continente se desvincularam da Nicarágua e os Estados Unidos recentemente exigiu a saída do presidente, opção apoiada por 79% dos nicaraguenses conforme a pesquisa da ONG Ética y Transparencia.
Recomendações
Em nota oficial, o Itamaraty alerta sobre o cenário da Nicarágua e aconselha que os brasileiros não façam viagens ao país. Porém, se a viagem for inevitável, a Embaixada do Brasil em Manágua adverte:
- Evite tomar parte de concentrações de caráter político;
- Caso se veja em meio a uma manifestação, mantenha a calma, distancie-se dos manifestantes e evite aproximar-se de grupos não identificados;
- Evite deslocamentos não necessários. Caso seja necessário efetuar um deslocamento, dê preferência a fazê-lo acompanhado e em vias policiadas;
- Manter em dia e válido o passaporte para a eventualidade de uma saída emergencial do país;
- Leve sempre consigo uma cópia de seu passaporte ou de um documento de identificação Válido. Mantenha uma cópia também em seu correio eletrônico;
- Avise a pessoas próximas (familiares e amigos) sua localização e meios de comunicação;
- Evite viajar para o interior do país e o deslocamento por estradas para fora da capital, que têm sofrido bloqueios por criminosos armados.
A Embaixada do Brasil em Manágua está atenta ao desenvolvimento dessa situação, com o objetivo de fornecer assistência e proteção consular aos cidadãos brasileiros. Em caso de emergência, favor comunicar-se ao número telefônico de plantão ou pelo correio eletrônico: consular@ibw.com.ni Plantão consular Embaixada do Brasil em Manágua: (+505) 88830915.