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Cocielo: O que a polêmica envolvendo o Youtuber nos revela

Recentemente, o conhecido Youtuber Julio Cocielo, criador do Canal Canalha, fez um post em sua página no Twitter, onde escreveu que o jogador francês M’bappé, negro, faria "uns arrastão top" em uma praia. Este tweet foi feito após a exibição do jogo da França X Argentina, pelas oitavas de final da recente finda Copa do Mundo da Rússia. Passado este primeiro problema, grande o suficiente para gerar estardalhaços na internet,  em face do cunho racista a que foi relacionado, vários outros tweets dele, de cerca de cinco anos atrás, foram desenterrados. Racismo, piadas envolvendo estupro, gordofobia e inúmeros outros temas, que estão em pauta atualmente, estavam presentes nos posts antigos feitos por Cocielo. O Youtuber chegou a fazer uma publicação com intuito de se retratar quanto ao tweet envolvendo o françês, afirmando estar se referindo à velocidade do jogador, o que não conseguiu amenizar a situação de Cocielo frente ao público. É redundante dizer que o problema, que já estava grande, na melhor das hipóteses, dobrou.

Podemos dizer, e isso já não é uma novidade, que a sociedade brasileira passa por uma bipartição, uma separação ideológica em duas espécies de times. Iniciando de maneira mais enfática no ano de 2016, a população se entendendo entre “direita” e “esquerda” briga entre si como se fosse inimiga mortal de si mesma. Adjetivos como “facistas, machistas, neonazistas” (dentro de muitos outros) caracterizam o que se entende como direita no Brasil. “Esquerdopatas, comunistas, ptralhas” são os apelidos dados aos integrantes do time que se entende como esquerda.

Essa briga é facilmente percebida no dia a dia de qualquer pessoa que tenha e use com certa regularidade Facebook, Instagram ou Youtube, por exemplo. Dessa sorte, esbarrar esta reflexão na mera afirmação disso torna a coluna sem propósito. A ideia, portanto, é que, ao invés de procedermos no julgamento moral de Cocielo, pensemos no legado deixado por essa guerra ideológica, quais as escolas que são criadas e são permeadas na sociedade diante disso tudo.

Não é preciso um intelecto newntoniano para perceber que todo processo educativo passa, necessariamente, por erro, aprendizagem e acerto; desse modo, aquele que se submete ao processo de educação, ao errar, precisa ser ensinado para que passe a mudar sua conduta, acertando-a. Apesar do paralelo fácil com o processo escolar, nosso norte nesta coluna é a conduta social; é fácil perceber esse processo educativo acontecendo de maneira frequente entre nós.

Pensemos, por exemplo, em um estagiário: é comum que, inexperiente como todo estagiário por natureza é, haja algum erro, por ele protagonizado, dentro do processo todo do estágio. Havendo, normalmente este estagiário é advertido e, concomitantemente, ensinado. Este ensino não necessariamente acontece com o seu superior sentando ao seu lado e, pacientemente, explicando-o detalhadamente a maneira certa de fazer aquilo em que houve erro. Uma demissão, inclusive, é uma maneira de ensinar, bem como este processo de explicação descrito também é; trazer outro estagiário para trabalhar com aquele que incorreu em erro é mais uma maneira de ensiná-lo.

A quantidade de maneiras de ensinar alguém que incorre em erro é gigante, tão grande quanto a necessidade de esse ensinamento acontecer. O grande problema está justamente no fato de que o mais importante da tríplice que compõe o processo educativo, o ensino, é exatamente o mais deixado de lado dentro da guerra ideológica tratada neste texto.

Ora, em nome da vitória, os times “direita” e “esquerda” relativizam o que é erro e o que é acerto, apagando a ponte que os liga.

Dentro da salada de opiniões que cercou o caso envolvendo Cocielo, buscou por agulha em palheiro quem tentou ter acesso a algum conteúdo que não balbuciasse verdades absolutas e inquestionáveis sobre o caso. O Movimento Brasil Livre, que se autodenomina representante da direita brasileira, postou um vídeo no Youtube, tratando o rapaz como um “arregão”, por ter postado, também, posteriormente a todo o problema que aconteceu, um vídeo se explicando e pedindo desculpas pelas publicações feitas.

O trecho abaixo que, obviamente, não retira as palavras de tudo aquilo presente no vídeo em íntegra:

“(...) a diferença nossa com a tua, com o vídeo que cê soltou agora é que você arregou, cara. Você se deixou subjulgar, você perdeu presses caras (...)”

                        https://www.youtube.com/watch?v=gTluyABW4Qw&t=108s (1:30)

No time adversário, Alexandra Gurgel, criadora do canal Alexandrismos, também do Youtube, declara em vídeo que são claramente falsas as desculpas publicadas pelo Cocielo em seu Twitter após a polêmica ter estourado. Vejamos:

“(...) O próprio Cocielo, ele fez um post depois pedindo desculpas e dizendo que era zoeira coisa que zoava com os amigos e que viu que falava coisa errada também. Depois de vazar todos os tweets ele vai lá e pede uma desculpa no próprio Twitter, né? Não faz um vídeo, não chama alguém pra falar, não fala nada. Ele pede essa desculpa esfarrapada que pra mim não serve pra nada, sabe? (...)”

https://www.youtube.com/watch?v=gRzCeUkyFCU&t=309s (4:45)

Ora, o que há aqui senão uma briga entre torcedores fanáticos, balbuciando, de um lado, que o rapaz deveria manter tudo o que foi publicado, que deveria enfrentar “os caras” e não abaixar a cabeça para eles; do outro, a relativização prepotente que chega a deslegitimar as desculpas publicadas pelo Youtuber?

Tudo isso exposto retoma a falha no processo educativo da sociedade. A ponte do ensinamento, seja ele de que maneira for, sofre maus bocados, para não dizer que está destruída. Os times só dão uma possibilidade: acerto; não importa o que é falado, o que é publicado, o que se demonstre. A “camisa” que se veste ao escrever, falar ou publicar é que vai determinar sua vitória incontestável dentro do time que escolheu, e a derrota profunda, o limbo perante o time adversário.

Muito se fala em educação quando a pergunta centra-se no protagonista para a evolução do país. Ora, onde há espaço para a evolução numa sociedade onde “errar” e “acertar”, dentro do processo educativo, são conceitos relativizados, em uma guerra ideológica que põe alguém que publica algo em sua rede social em penitência profunda  e sem fim e, ao mesmo tempo, em um pedestal?

Como pode evoluir um país em que a sua população, que sofre em uma bipartição tosca e sem conteúdo, legitima a destruição da única ligação o erro (passado) ao acerto (futuro)?

As perguntas são pertinentes e postas para motivar reflexões de nossa parte, para nos levar a decidir sobre a construção ou destruição da única ligação entre nós e a evolução, entre nós e o futuro. 

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