YURI MENDES
Ocorreu na última sexta-feira (28) a apresentação do cantor Johnny Hooker no Festival de Inverno de Garanhuns, o Fig. Dotado de um tom político, o show foi marcado por um momento em especial onde Johnny diz que “Jesus é travesti, sim!”, dentre outras falas neste mesmo momento e teor. Confira:
Como mostra o vídeo, o público que acompanhava a apresentação demonstrou-se dividido entre os que vaiaram as declarações do cantor e aqueles que o apoiaram. Neste sentido, a ideia buscada neste texto é pensar sobre os reflexos dessa fala e da maneira como foi expressa.
Johnny, através do que declarou e de como declarou, acabou por incendiar ainda mais a discussão em volta do caso envolvendo a Renata Carvalho, travesti que interpretou Jesus na peça “O Evangelho”, também apresentada no Fig. O que tem sido posto em pauta é o teor sagrado da religião e como esse sagrado se relaciona com a comunidade LGBT, historicamente refém dos mais diversos preconceitos, muitos deles intimamente ligados ao teor pecaminoso que tem, dentro da religião Católica e Protestante, a homossexualidade.
De acordo com o IBGE, em censo realizado no ano de 2010, o Brasil tem 86,8% de sua população como sendo cristã (somadas as porcentagens de Católicos e Protestantes). Desse modo, independentemente da bandeira que se busque levantar ou da pauta que se pretenda trazer, é necessário que se pense em uma estratégia de como levar isso a uma população majoritariamente cristã.
Inúmeros fãs se manifestaram em defesa do cantor, interpretando sua fala no sentido de que ele quis dizer que Jesus não teve restrições ou preconceitos e que assim deveria ser a conduta daqueles que o seguem. No entanto, ao gritar a “verdade”, Johnny apenas trouxe surdez aos que precisam ouvi-lo. Ora, quem precisa ouvir o que cantor tem para falar não é o seu público alvo. As pessoas que o aplaudiram de pé, que ficaram impactadas com a força das suas palavras não são (ou não deveriam ser) os destinatários da mensagem.
Como esperar uma reação positiva se a atitude tomada é “gritar” verdades, consideradas absolutas por quem fala, na “cara de alguém” que tem pensamentos radicalmente opostos? No exato momento em que se escolhe esta alternativa para passar a mensagem pretendida, dois são os reflexos: surdez e invisibilidade. Ao trazer ideias tão profundamente avessas à crença de mais de 85% da população, da maneira como foi trazida pelo cantor, é inevitável que tudo isso provoque aversão em quem escuta, transformando-os em “surdos” para o que foi “gritado”.
Muito pior que isso, porém, é a invisibilidade trazida por esse tipo de acontecimento. O movimento LGBT, os artistas que o representam e as pessoas que o compõem são colocados todos no mesmo grupo, todos têm suas vozes retiradas, todos são reduzidos aos “que só fazem ofender a fé dos outros”. Toda a profundidade e importância do movimento e de suas pautas são esquecidas, são ofuscadas pelos gritos e pelas frases de efeito.
A verdade precisa ser trazida. Uma vez imposta, deixa de ser verdade. Torna-se ruído.