Marielle Franco; Juliane Duarte Marielle Franco; Juliane Duarte ( Divulgação )

Juliane Duarte, presente!

YURI MENDES


Nesta sexta-feira (24), pouco mais de duas semanas se completam do enterro do corpo da policial militar Juliane Duarte dos Santos (7). A perícia atestou que a PM foi torturada por cerca de cinco dias até ser morta, sendo baleada na cabeça. Em virtude dos que não lembram, ou não saibam do fato, lembramos do ocorrido: na madrugada da quinta-feira (2), a policial desapareceu dentro da favela Paraisópolis, capturada por criminosos em um dia de folga de seu trabalho.


Infelizmente, dentro da nossa realidade, enquanto brasileiro, esse tipo de acontecimento é muito mais recorrente do que desejávamos. Desse modo, o intuito é pensarmos acerca da repercussão deste caso e o que isso fala acerca da nossa sociedade.


A polícia militar é alvo de severas críticas por parte da grande parcela da sociedade. Todas, ou a absurda maioria delas, são cobertas de razão; tratam da truculência, autoritarismo e da evidente falta de preparo por parte dos PM’s, que se reflete de maneira clara em qualquer de suas ações dentro de comunidades de baixa renda e/ou dentro de grandes manifestações populares.


Sem deixar de lado este fato, mas trazendo um contraponto, existe uma questão pela qual passa a sociedade que é tão ou mais preocupante que a relacionada à Polícia Militar: chamo isso de síndrome do monopólio do discurso/virtude.


Esta síndrome é evidenciada pela ruptura ideológica que existe atualmente: os grupos que representam alguma ideologia acreditam (e agem nesse mesmo sentido) que possuem uma espécie de monopólio do discurso, daquilo em que se vê algo bom. Apenas o que é defendido por eles pode ser defendido, apenas o que é atacado por eles negativamente deve ser atacado negativamente; tudo aquilo que não passa pela sua linha de concordância não tem espaço para ser observado positivamente por ninguém. Falo de maneira impessoal por ser uma síndrome geral, encontrada em diversos grupos distintos.


Ao pararmos brevemente para pensar, percebemos o quão prejudicial isso é. O exemplo claro desta situação é a manchete (e matéria) feita pelo Folha de São Paulo acerca do caso de Juliane: “PM Juliane teve últimos momentos livres com bebida, beijos e dança”. O texto, encontrado na íntegra aqui, é construído para implicitamente desmerecer as atitudes da PM, associando a sua imagem a uma espécie de despreparo e detalhando excessivamente aspectos particulares por parte da policial, que nada interessam e importam quanto à passagem da informação.


A matéria informa pouco, traduz de maneira quase imperceptível a dor e revolta que o caso deve gerar; torna a morte e tortura que sofreu Juliane coadjuvante no texto, invisibilizando a situação de fato.


Percebamos, agora, o caso pelo qual passou Marielle Franco. Toda a repercussão que existiu (e ainda existe) nas mídias tradicionais, nas novas mídias, nas redes internacionais. Sua morte gerou uma série de debates absolutamente necessários sobre a atuação da PM nas favelas, trouxe à tona seus trabalhos intelectuais, motivou uma investigação que foi/é cobrada e acompanhada de perto, além de uma comoção nacional, incentivada, também, pela atuação das mídias no trato do assunto. E reforço que tudo esta cobertura acerca do seu caso é absolutamente necessária e válida.


Duas mulheres. Duas negras. Dois casos de assassinato a sangue frio dentro de uma favela. Dois tratos e coberturas absurdamente diferentes. Dois status diferentes. Aparentemente Juliane não se enquadrou no perfil que pode ser defendido. Restou a ela matérias frias, de pequeno alcance, além de manchetes que ironizam o inferno que deve ter passado nos seus últimos momentos.


Essa ausência de uma cobertura enfática, séria e comprometida, como aconteceu com o caso de Marielle, só nos demonstra a seletividade que esta tal síndrome, de que falei, traz. Na verdade, pior que a ausência é a insensibilidade em desviar o foco principal do caso, tentando atribuir a vítima as justificativas de seu assassinato. A violência, a criminalidade matou Juliane. Mais uma morte, mais uma mulher morta. Não é necessário maiores motivos, tratamos de uma vida.


Juliane teve seus últimos momentos, falo com certeza, entre dor, desespero e absoluto medo. Sua memória pós-morte, porém, foi denegrida, regada à ironia e invisibilidade.


Tal como Marielle, a policial hoje integra as estatísticas de homicídios.


Juliane Duarte, presente!


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