Tatiane Spitzner Tatiane Spitzner ( Reprodução Instagram )

O caso Tatiane Spitzner é mais um sintoma de uma sociedade adoentada

YURI MENDES



Foi indiciado, no último dia 31 de julho, Luis Felipe Manvailer, acusado de feminicídio contra a advogada Tatiane Spitzner. O indiciamento da Polícia Civil aponta o delito como qualificado por ter o acusado utilizado meio cruel (que impossibilitou a defesa da vítima), pelo motivo torpe e pela condição do sexo feminino por parte da vítima. Imagens das câmeras de segurança do prédio foram divulgadas à imprensa e demonstram que a trajetória do casal em direção ao apartamento já vinha acompanhada de fortes agressões contra Tatiane, que tentou se defender e fugir dos ataques como pôde. ATENÇÃO! AS IMAGENS SÃO FORTES:




O caso fala muito mais do que o vídeo quer demonstrar. A maneira como os acontecimentos se desenvolveram revela com clareza algumas das mazelas sofridas por nossa sociedade. Vejamos inicialmente a atitude, ou a falta dela, dos moradores e funcionários do prédio. Tatiana sofreu agressões desde o carro. Se desgarrou do marido e chegou, inclusive, a correr dentro do estacionamento. Já no elevador, foi severamente espancada por Luis. O indiciamento feito pela Polícia Civil suspeita fortemente que as agressões continuaram dentro do apartamento do casal.


A ausência de atitude por parte dos moradores e funcionários do prédio parece ter o mesmo fundo de quem ainda consegue considerar as motivações do indiciado ao cometer o crime: a ideia de poder por parte do homem. A sensação de domínio, ou melhor, a vontade de mostrar e exercer o poder é cultural e antiga no masculino. É o que hoje se chama "Machismo Institucional".


Essa cultura está arraigada na sociedade há muito tempo, porém, atualmente, tem sido revelada, mostrada com mais clareza. O auxílio da imprensa no noticiamento profundo de crimes como este e a popularização deste conhecimento nas redes sociais, por exemplo, ajudam a tornar cada vez mais amplo o entendimento do que é o Machismo Institucional.


O ponto crucial que deve ser entendido de tudo isso é que os crimes cometidos contra as mulheres, por parte dos homens, são, muitas vezes, frutos de uma mentalidade que não aceita a mulher numa posição de independência em relação ao homem. Interessante é pensar, por exemplo, que esta é uma cultura tão fortemente presa à sociedade em geral que o meio de punição aos homens, autores desses tipos crimes, que mais se vê ser solicitado é a castração química. Tornar o órgão genital do homem inútil sexualmente, eliminando qualquer possibilidade de prazer sexual por sua parte.


Esse tipo de punição somente  entrega que consideramos que o respeito do homem, toda sua virilidade e masculinidade está presa ao seu órgão sexual. Ou seja, contribuímos para que a verdadeira masculinidade seja constantemente posta de lado e reforçamos, nas entrelinhas, que consideramos que, sem a sua sexualidade, o homem deixa para trás suas más atitudes.


No entanto, como já foi dito e reforça-se, o fundo desses crimes tem ligação muito maior com a ideia de poder do que com qualquer outra coisa. A noção errada do que é virilidade e masculinidade apenas polui as atitudes masculinas, tornando especialmente frágil o ego do homem para qualquer atitude feminina que o contrarie e mostre minimamente sua independência.


O enrijecimento das leis, o reforço policial e o esforço em punir só age nos sintomas do problema. O máximo que se consegue é estancar os sintomas, porém em nada é atacada a causa do problema. Atacá-la vai muito além. Trata-se de conscientização e de educação que toque de maneira profunda nesse tema. Todos esperamos, é claro, nada menos que a justiça e que, em caso de decisão que torne Luis culpado, ele seja devidamente preso e cumpra as penas do crime que cometeu.


Para o bem de tantas outras vítimas, como Tatiane, esperamos que o Machismo Institucional seja levado a sério e devidamente enfrentado, não apenas os seus sintomas, mas toda a sua causa.


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