Baseada em uma distopia escrita por Margaret Atwood, além de laureada pelo Emmy Awards como melhor série dramática, The Handmaid’s Tale se mostra extremamente visceral e emociona ao fugir dos padrões repetitivos de muitas séries.
Após uma crise de esterilidade mundial, religiosos fundamentalistas apontam a imoralidade humana como responsável por esta “praga”, instaurando um regimento autodenominado, no livro que baseia a série, teocracia totalitária cristã, a República de Gilead. Diante desse quadro, quão rápido se instaura a miséria humana? Quantas leis são necessárias para conceder uma subvida para grande parte um país?
A série nos prova que isso acontece de forma rápida, sem muitos esforços. Como solução para a crise de fertilidade, e outros “desvios morais”, o novo Governo parece reunir as maiores ameaças à democracia e estabelece um controle rígido sobre tudo: desde o método de produção alimentar até as roupas de cada cidadão; isola o país, some com todo e qualquer direito que a humanidade já tenha conhecido, além de estimular uma organização social em castas. Tudo isso, é claro, embasado por versículos pontuais e uma interpretação distorcida da Bíblia.
Em meio a este cenário, surgem as Aias: mulheres férteis que são reunidas como animais, catalogadas como objetos e “abençoadas” com estupros sistemáticos em prol de uma criança que será gerada e inicialmente cuidada por elas. Após as primeiras semanas, as Aias repassam a criança para os cuidados por parte de um casal da alta sociedade. Finalizado este ciclo, a Aia segue para a próxima casa e tudo recomeça.
O desenvolver dessa história tão singular acontece de maneira genial! A série consegue vencer a barreira que há entre esta história tão chocante e o espectador, criando, brilhantemente, uma relação entre nós e esse universo. Inclusive, a atuação de Elizabeth Moss, como a protagonista June Osborne/Offred, é um dos elementos cruciais para esse sucesso! Ela consegue imprimir toda carga emocional da personagem sem muitos exageros. A angústia ou nojo que é vivenciada em alguns momentos por ela é repassada apenas com um olhar ou expressão (que é sabiamente evidenciada pela câmera).
Além disso, Moss, aliada ao roteiro, consegue nos apresentar um dote inovador: Humanidade! Ler isso pode parecer estúpido, mas é surpreendente. Em meio a uma cenário onde é tão bem estabelecido os vilões e os mocinhos, June não surge como uma super-heroína dotada de mente brilhante ou uma revolucionário extremamente corajosa. Na verdade, aparece como é: uma mulher comum que teve sua vida destruída, que luta -e muito- para sobreviver em meio a um cenário de constante agressão psicológico e física. Essa humanidade fervente em suas veias faz com que a personagem destoe dos demais.
Outro ponto interessante, é a mesclagem entre flashbacks e momentos atuais da vida de June. Essa mistura vai evidenciando ao espectador o nascimento da Gilead em meio a um cenário de negligência social. Logo, o que começou com a necessidade da autorização do marido para o uso de concepcionais, se torna uma proibição por parte dele. As mulheres são proibidas de trabalhar, são destituídas de todo e qualquer bem material e, dessa forma, você verá médicas renomadas tornando-se mão de obra escrava, bem como grandes escritoras sendo proibidas de ler, por exemplo.
A direção de arte e fotografia da série se apresentam de forma impecável. Tudo parece estar em perfeita harmonia e traduz uma verdadeira obra de arte. O ângulo utilizado na filmagem, a trilha sonora e as cores características de cada núcleo da série abraça as cenas e compõem cada momento.
The Handmaid’s Tale trás uma história dura, mas real. Se mostra capaz de importunar e nos fazer refletir a cada episódio, a série nos perseguindo para muito além das telas.