( O juiz Sergio Moro | Nelson Almeida / AFP )

Análise | Moro tem serviços prestados, mas aceitação de convite de Bolsonaro pode trazer questionamentos ao juiz

JOSÉ MATHEUS SANTOS O jornalista Ancelmo Gois informa em sua coluna, na edição desta quarta-feira (31), no O Globo, que o juiz Sérgio Moro irá ao Rio de Janeiro para se encontrar com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) nesta quinta-feira (1º). Na pauta, certamente haverá a discussão sobre a participação de Moro no Ministério da Justiça do governo a partir de janeiro. Essa situação pode questionar a já conturbada atuação do magistrado à frente da Operação Lava-Jato.

É fato que o combate à corrupção é importante para o país, até porque antes da Lava-Jato os políticos corruptos tramavam com a certeza de que um dia não seriam punidos. Hoje, eles já têm mais cautela diante dos feitos da Lava-Jato e da coragem inicial do Ministério Público e do juiz Moro, que iniciaram as investigações e levaram o trabalho para a frente. Muitos membros do Judiciário certamente poderiam temer até pelas suas próprias vidas se estivessem no lugar deles. Cabe a nós, nesse sentido, sermos realistas diante do cenário.

O juiz Moro, logo, é um marco na Lava-Jato. Porém, caso aceite ser ministro da Justiça, dará um presente de mão beijada para os petistas, que questionam a sua imparcialidade nos julgamentos do ex-presidente Lula. Moro também cometeu excessos que permitiram questionamentos. Revelou ligações, em 2016, da então presidente Dilma com o ex-presidente Lula sem que um juiz de primeira instância pudesse divulgar as ligações, é tanto que o ex-ministro do STF, já falecido, Teori Zavascki repudiou o ato de Moro e anulou os grampos dos processos, considerando-os “ilegais”. Moro apenas pediu desculpas, depois do estrago feito. O fato foi às vésperas do impeachment de Dilma e alavancou ainda mais o discurso da oposição, que minava o fraco governo vigente no período e questionava conteúdos terríveis tratados entre Dilma e Lula, mas Moro errou ao divulgar, pois não lhe competia.

No final de julho, o Brasil, atônito, testemunhou um dos episódios mais bizarros do Judiciário. O desembargador do TRF-4 Rogério Favreto emitiu uma decisão para soltar Lula, alegando um fato novo, que Lula seria candidato à Presidência. Bizarro. Se fosse desse jeito, o traficante Fernandinho Beira-Mar poderia também alegar uma candidatura e seria solto depois de diversos crimes cometidos. Porém, não cabia ao juiz Sérgio Moro, que estava de férias, interferir na bisonha decisão de soltura e atuar, via telefone, conversando com o delegado-chefe da Superintendência da Polícia Federal no Paraná. O certo era um magistrado de grau superior barra a decisão, como aconteceu, porém depois de Moro peitar por duas vezes, incorretamente, um superior seu, como se ele fosse o único juiz do Brasil. Essas atitudes reprováveis do juiz Moro já são motes de discursos contra ele, imagine se ele deixar seu posto atual para subir à Esplanada dos Ministérios em Brasília. Além de que ministro da Justiça é subordinado ao presidente, a independência não é garantida.

Caso Moro aceite o convite de Bolsonaro para comandar a pasta da Justiça, ficará muito difícil que o discurso de "parcialidade" em seus julgamentos não cole. Réus e condenados ligados ao PT poderiam sim questionar em cortes superiores o juiz Moro. O juiz Moro vai interrogar o ex-presidente Lula no dia 14, daqui a duas semanas, e está prestes a fazer um julgamento sobre o caso do sítio em Atibaia. Só o fato de Moro ficar se encontrando com o presidente Bolsonaro já deixa sua atuação abalada aos horizontes racionais. Se ele não der uma resposta definitiva ao presidente eleito e interrogar e julgar o ex-presidente Lula, faltará o mínimo de decência a Moro. O certo era, se ele continuar balançando sobre o convite, não interrogar o petista e deixar para outro juiz fazer isso.

O problema do Brasil hoje é que há torcidas políticas, e não análises racionais. Parte dos apaixonados políticos ou por membros do Judiciário analisa de acordo com a conveniência, e não com a racionalidade e espírito de cidadania, que deveriam ser soberanos na democracia. Durante a leitura desse texto, você, caro leitor, pode ter se irritado porque critiquei Moro ou Lula e o PT, mas seja sensato. Ambos deveriam fazer uma autocrítica, ainda que, para você, eles ou um deles possa ter ajudado o país.

Critique-se quando necessário para não se omitir posteriormente.

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