KATARINA MORAES
No último século, os movimentos sociais eclodiram e, com eles, a afirmação das identidades e ideologias de grupo. Não há dúvidas da necessidade de representação das minorias nas bancadas, porém, observando um comportamento que não advém apenas da esquerda, a pergunta que deve ser feita é: até que ponto a ideologia do grupo social a que você se diz pertencer pode influenciar seu voto? Será que as propostas do candidato condizem à postura que ele toma frente aos palanques e plenários?
Chega em um momento político instável, a lacração. Onde o candidato com mais jogo de cintura, respostas na ponta da língua e uma apropriação do discurso do público que ele busca atingir ganha seu voto.
Explora-se o que não mais pode ser negado: o discurso das minorias vende. As multinacionais começaram a perceber isso e incluir essa “luta” às marcas, quando, na verdade, não passam de estratégias de venda e consumo. O que leva essa relação à política é que tais manifestações vendem não só produtos, mas audiência e ideias.
Apesar de vermos essa associação de modo mais forte na esquerda, pelas diversas vozes – antes silenciadas - que a compõe terem ganhado mais espaço nos últimos tempos, trata-se de um espectro direita-esquerda. Em ambos os lados, o eleitor, atualmente, busca entre os candidatos o que mais se parece com quem ele é, ou quer ser. O que se vê são campanhas políticas que controlam as multidões e falsos intelectuais que se apropriam de um lado para assemelhar-se, no qual a busca pela verdade não existe, mas sim, a procura por discursos que sustentem as suas pós-verdades, grande aliada das fake news, que em uma explicação simplificada foi definida pela Oxford como “a hegemonia das crenças pessoais frente aos fatos objetivos”.
O eleitor de Alckmin buscou saber sua atuação como governador de São Paulo, ou escolheu o destino do seu voto por ele ser do centro? Por não ser, como muitos afirmam, nem um, nem outro? O eleitor de Manuela D’Ávila sabe quais são seus posicionamentos frente à saúde pública do país? Ou baseia seu voto apenas pelas suas camisetas de “lute como uma garota”? O eleitor de Lula buscou saber quais serão as propostas para um terceiro mandato? Ou vota pela ideia de quem Lula é, ou de quem foi? O eleitor de Bolsonaro buscou saber como ele atuará na educação do país ou o segue pelo perfil firme de um militar de direita?
Como resultado, vê-se debates saturados de acusações, noticiários que, ao invés de esclarecer e tornar o entendimento mais fácil à uma população descrente e desinteressada na classe política, enchem a programação de pesquisas de intenções de voto, opiniões mal embasadas, notícias não apuradas e boatos que tornam o maior instrumento da organização do Estado e o exercício da democracia em um reality show.
Vivemos em um momento hostil em nosso país, mas nada irá mudar se continuarmos reproduzindo os discursos que ouvimos de outrem. É necessário cobrar da mídia uma cobertura humana e democrática, que ela cumpra seu objetivo de informar.
É hora de repensar as frases prontas, o “nenhum político presta” que mais se parece com uma desculpa para a fuga do seu dever como cidadão de se inteirar e decidir o futuro do Brasil. Política não se restringe aos intelectuais, às universidades e ao patronato. Política se discute sim e se cobra também.
Política não é só sobre quem ganha ou quem perde, trata-se da estrutura de governo que afeta diretamente a vida das pessoas. Não é ficção, não existe mocinho e vilão. Não há espaço para a demonização dos políticos, para a ignorância e estigmas preconceituosos. É necessário ouvir, pesquisar, e não rotular o desconhecido.
No momento em que as propostas de governo param de ser discutidas e as polêmicas envolvendo a vida pessoal, declarações de tempos atrás dos candidatos e as fake news ganham espaço, criando um clima tensionado entre os eleitores - que fazem da política um ringue - todos perdem: a democracia, o país e os cidadãos.