MANOEL NETO * Divulgada nesta semana, a primeira pesquisa Ibope de intenção de voto para Presidente após registro das candidaturas indica algumas questões importantes acerca do cenário eleitoral. Entre elas, a consolidação, nesse momento, de Jair Bolsonaro (PSL), deputado federal há 28 anos, na liderança, nos cenários sem o ex-presidente Lula (PT). Bem ou mal, é preciso falar sobre ele.
Diversos setores da sociedade observam esse cenário com, para dizer o mínimo, cautela. Motivos? São fartos. Muitos ficarão de fora, mas vejamos alguns:
Uma questão que salta aos olhos e resume bem a gravidade da situação é o visível despreparo do Capitão da Reserva para discutir propostas efetivas e que possam tirar o Brasil da crise. Bolsonaro ocupa cadeira na Câmara Federal há incríveis 7 mandatos, o que torna surpreendente a sua falta de habilidade para discutir, com um mínimo nível de aprofundamento, políticas públicas que ele julgue coerentes. Quando as falas decoradas não parecem suficientes, a estratégia do presidenciável é reverter os questionamentos para o perguntador, revelando sua imensa incapacidade de esclarecer questões básicas perante o eleitorado. As (rasas) justificativas do candidato são sempre as mesmas e se traduzem numa única ideia: formarei uma boa equipe de ministros e deixarei que eles resolvam. O candidato do PSL ignora, assim, o papel mediador fundamental que o Presidente terá nessa questão, comandando a articulação, junto aos ministros, de políticas baseadas, em linhas gerais, na sua própria ideia de administração. O problema é que ele parece não ter ideia alguma.
O debate político no Brasil, hoje, é refém de uma demagogia que surfa na onda da (justa) aversão ao sistema. É preciso, porém, para tirar o país da situação em que está, uma clareza muito maior na proposição de ideias. Seria válido Bolsonaro explicar à população, por exemplo, como ele se apresenta como o candidato fora do sistema, sendo que ele, há quase 3 décadas, faz parte da mesma estrutura improdutiva e que levou o Brasil para o caos em que se encontra hoje. A realidade que deveria ser esclarecida é como um candidato com uma carreira parlamentar predominantemente corporativista e sem a mínima vontade de, por exemplo, disputar cargos no Poder Executivo do Rio de Janeiro, estado que passa por uma crise sem precedentes, pretende resolver, magicamente, os complexos problemas do Brasil. É difícil assumir (e convencer), de uma hora para outra, a postura de um liberal defensor do estado mínimo quando se tem uma vida inteira custeada pelo dinheiro público, recebendo de auxílio moradia mais do que a esmagadora maioria das famílias brasileiras dispõem para custear todas as despesas mensais.
Sendo a política o espaço do contraditório, é legítimo que Jair Bolsonaro se mostre como candidato. Entretanto, é preciso sair dos clichês e apresentar, além de justificativas para as suas (muitas) contradições e inconsistências, propostas de políticas públicas para ajudar o Brasil. É difícil compreender como, por exemplo, o candidato questiona, em seu plano de governo (diagramado de maneira exótica, por sinal), os índices brasileiros no PISA, levantando como uma grande saída expurgar a ideologia de Paulo Freire da educação. Cingapura, referência nesse ranking, estimula um processo educativo ligado à experiência, à problematização e à criatividade, princípio que se coaduna com Freire quando ele afirma que a educação deve estar ligada à aplicação do conhecimento para intervir na realidade e transformá-la, o que seria fundamental para quebrar o modelo estanque e deficitário que é aplicado na nação.
Governar o Brasil exige, muito além da honestidade, que é um requisito elementar do agente público, preparo e estudo sobre a realidade do país. A reticência de uma grande parte da sociedade com relação a Bolsonaro é justificável: alguém que ocupa lugar na política há 30 anos e demonstra tamanho desconhecimento sobre aspectos básicos de gestão pública não inspira, fora dos seus defensores fieis, muita confiança. É fundamental que o líder nas pesquisas, ao invés de atacar quem faz questionamentos, procure esclarecer os pontos que parecem nebulosos. Isso sim, sem sombra de dúvida, seria mais salutar para o debate em torno do projeto de desenvolvimento que é necessário. *Manoel Neto estará todas as terças-feiras comentando a eleição nacional no Portal RCF.