( Agência Estado )
MANOEL NETO
Sobretudo da metade para o final, a campanha de Jair Bolsonaro foi marcada por uma série de declarações desencontradas entre os membros do seu alto escalão, o que revela um certo nível de improvisação e, muitas vezes, de amadorismo. O primeiro colocado nas pesquisas precisará, em vencendo o pleito próximo, demonstrar um eficiente poder de articulação em torno da organização do seu núcleo próximo. O grande problema, entretanto, é que o candidato, pelo menos no momento, não tem conseguido fazer isso.
Os ruídos ocorreram, principalmente, após o trágico evento em Juiz de Fora, onde Bolsonaro levou uma facada e ficou, por condições clínicas, de fora dos eventos de campanha desde então. Entraram em cena dois personagens polêmicos da campanha: Paulo Guedes, consultor econômico, e o General Mourão, que ocupa o posto de vice na chapa. O economista, em evento fechado, deu a entender que pensava na volta de um imposto único e nos moldes semelhantes aos da CPMF, a qual já recebeu, em uma oportunidade, posição contrária do ex-deputado. Mourão, por sua vez, foi protagonista de dois polêmicos momentos pós-atentado: já deu a entender, em um dos momentos mais bizarros da campanha, que casas chefiadas por mães e avós são “fábricas de desajustados”, além da sua curiosa sugestão de que o 13º salário, direito garantido pela Constituição, seria um peso. Diante das controvérsias, os dois foram blindados, evitando os compromissos públicos. Postura cara a do próprio Bolsonaro, que já admitiu a possibilidade de não ir aos próximos debates por “estratégia”.
Tudo na campanha soa bastante artificial. Um bom presidente não é aquele que domina todos os assuntos, mas sim o que consegue, com um bom conhecimento geral e poder de articulação, aglutinar forças em torno de um projeto comum. Os constantes confrontos de posição evidenciam que falta essa essência à candidatura de Bolsonaro: além de um militar pouco comedido na vice, a própria ideia de Estado de Paulo Guedes, economista conhecidamente liberal, entra em confronto com a posição estatizante do candidato. A única saída encontrada para fugir das polêmicas foi o sumiço público, coisa que não poderá ocorrer caso o capitão da reserva chegue à presidência. Os conflitos são imensos e, pelo menos até agora, não parece claro como Bolsonaro conseguirá equilibrar os pontos demasiadamente antagônicos do grupo.