O problema da corrupção no Brasil é crônico e inúmeras cruzadas tem sido travadas contra as suas manifestações. A Operação Lava-Jato, repleta de críticas e inconsistências, foi símbolo de um fôlego que tentou passar um marco de intolerância contra a corrupção em si. Em Pernambuco, entretanto, nos deparamos com um acontecimento um tanto quanto curioso: a solicitação de regime de urgência na votação de um projeto de lei que pretendia extinguir e aglutinar diversas delegacias com propósitos específicos, dentre eles o combate à corrupção. E foi, sim, sancionado.
Na prática, Pernambuco contará com a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, a Draco, que acumulará as funções de combate à corrupção, anteriormente relegada a uma delegacia específica e autônoma, a Delegacia de Crimes contra a Administração e Serviços Públicos, Decasp. Os pontos geradores de curiosidade são vários, a começar pelo regime de urgência solicitado pelo recém reeleito governador Paulo Câmara. O projeto por natureza é repleto de detalhes, que mereciam ter tratamento cauteloso, ao redor de muitos debates e discussões para a melhor análise do tema.
A rapidez dos acontecimentos reforça, apenas, a sensação de que estamos diante de mais um jogo de interesses políticos. Honestamente, não deveríamos nos impressionar. O jogo de interesses políticos está diante de nós desde as eleições e nós parecemos ignorá-la, recorrendo a incoerência da crítica assustada às atitudes do governador. A incoerência, essa sim, aparenta estar arraigada a nós pernambucanos; talvez uma espécie de amnésia.
Durante 2015 e 2016, Paulo deu diversas declarações de apoio, mesmo que implícito, ao processo de impedimento sofrido pela ex-presidente Dilma Rousseff. Seja concordando com a constitucionalidade do processo, seja pondo panos quentes sobre a situação, Paulo assumiu uma postura conformativa com tudo o que aconteceu. Além disso, não custa relembrar que no ano de sua primeira eleição, 2014, Paulo assumiu explicitamente a candidatura de Aécio Neves (PSDB), adversário da candidata do PT à presidência.
Neste ano, no entanto, uma das muletas sobre as quais a campanha do Governador se apoiou foi inicialmente na candidatura de Lula e depois na tentativa de Haddad chegar ao Planalto. Mais que isso, todo o “pacote” abarcado pelo PT. O pior de tudo isso é a ausência de uma declaração do governador com uma espécie de retratação, ou expondo, talvez, ter mudado de opinião após alguma reflexão. As dúvidas sobre a sinceridade da declaração seriam gigantes, mas ainda haveria algo a se duvidar. A maneira como foi conduzida a campanha e o uso do PT como muleta para arrematar votos foi uma mensagem clara: importa estar no poder, nada mais. E, sim, o reelegemos.
Diante de atitudes reveladoras de princípios (ou falta deles) como essas, como ainda se surpreender com acontecimentos absolutamente arbitrários, a exemplo da extinção da Decasp? Uma decisão que vai na contramão de toda a tendência anticorrupção que tem se levantado no país, que dá mais burocracia e menos autonomia para apuração e investigação de crimes tão significativos para a sociedade em geral. As manifestações a favor, que explicam a unificação, são várias. Não passam, no entanto, de alguns pingos de água na garganta instalada da sociedade que teve posta “goela abaixo” uma decisão atrasada.
O mais inquietante em tudo isso é a ausência de oposição significativa daqueles votados na Assembleia Legislativa. Melhor, o mais inquietante é perceber – pela enésima vez- que neste jogo político nossos votos contribuem para a nossa própria derrota.