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Partido Novo, ideias velhas

MANOEL NETO

Como já amplamente discutido, inclusive nesse espaço, um momento de descrédito da classe política possibilita o aparecimento de grandes figuras. Nas eleições de 1989, por exemplo, o embate do segundo turno se deu entre Collor e Lula, dois quadros que, um pela esquerda e outro pela direita, roubaram a cena política e deixaram para trás os candidatos convencionalmente vistos como representantes do “sistema”. Acontece, em 2018, algo parecido: trafegando e campo político semelhante, temos, hoje, Bolsonaro, que afirma representar a bandeira da honestidade, e João Amoedo, candidato pelo partido que fundou, o Novo, que se apresenta como um outsider do meio político, sendo, portanto, capaz de, segundo seu discurso, romper com todos os vícios e problemas da combalida democracia brasileira. Algo que, por mais que pareça simples na boa oratória do carioca, é muito mais complexo do que parece. Explico.


Tocar um projeto liberal no Brasil não chega a ser uma grande novidade. A receita de contenção dos gastos públicos, privatização e austeridade fiscal é a ideia geral da condução política dos governos do PSDB e do governo tampão de Michel Temer. A grande base de sustentação desse pensamento é justamente dar total liberdade para um mercado que, do alto do seu olhar acurado sobre problemas sociais, possa resolver as demandas da esmagadora maioria pobre da sociedade. Olha-se bastante para os Estados Unidos nesse processo, porém, o Brasil atravessou um perverso processo de colonização que desencadeou uma estrutura social extremamente desigual, o que gera uma necessidade de cautela nesse caminho


Nesse ínterim, aparece o “Novo”. Formado por grandes empresários e com um processo seletivo que se assemelha aos programas de trainee das grandes empresas, o corpo do partido representa, em essência, a grande massa empresarial que sempre apareceu em relações muito estratégicas com o governo desde a redemocratização. Pesa em seu favor o fato de não ter quadros ligados à “velha” política, o que dá credibilidade ao discurso contra a corrupção, porém, um fator negativo também pode aparecer junto: como pregar um modelo de gestão eficiente, herdado na iniciativa privada, no âmbito federal sem que isso sequer tenha sido testado em uma prefeitura ou em um estado? Estaria o Brasil preparado, nesse momento, para experiências?


É evidente que o “Novo” é assombrado pelo velho. A inquietação dos criadores do partido é legítima, uma vez que a Constituição de 88 prometeu muitas garantias e, atualmente, os grupos políticos tradicionais não conseguem efetivá-las firmemente. Porém, é preciso ter clareza: a ideia de sociedade que baliza o partido não tem nada de nova, uma vez que sempre foi essa a base do ideal que se contrapôs ao PT. Há uma ânsia do partido em inovar no modelo de gestão, o que poderia vir a ser positivo, entretanto, é preciso coragem para enfrentar as discussões sem demagogias eleitorais. Muitas vezes, o candidato João Amoêdo brada o seu compromisso com reformas e medidas que seriam complexas em virtude de uma questão chave na governabilidade: o Congresso Nacional.


Para grandes executivos, é fácil bradar contra a “interferência” do Estado na vida dos indivíduos. É fato que o atual modelo de república ruiu, porém, na prática, representatividade e domínio do jogo político (atributos que ainda parecem faltar ao “Novo”) são muito importantes no momento crítico que o Brasil atravessa. Toda a discussão em torno de melhorias é válida, porém, é curioso notar que o grande ideal do “Novo” é um Estado mínimo, que deixe a população independente, sem interferência e autônoma para construir seus próprios caminhos.


Para a sociedade, grande conhecedora das mazelas da nossa velha colônia de exploração chamada Brasil, fica o questionamento: O que há de novo nisso?





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