( Presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a ligar para Jair Bolsonaro e desejou felicitações após a vitória, na noite de domingo (28) )

Porta aberta ao avanço conservador no mundo

Nos últimos três anos, candidatos com pensamento à direita têm obtido crescimento eleitoral em diversos países como o Brasil, que elegeu Jair Bolsonaro neste domingo (28). A partir de janeiro, um novo modo de pensamento de ideias será implantado do país, assim como ocorreu em outras nações. Cientistas políticos afirmam que o principal fator para a versatilidade na postura da sociedade no momento é o surgimento de valores específicos de acordo com a particularidade de cada continente.


Na América Latina, após o boom de governos de esquerda na década passada, o momento já se encaminha para uma onda ligada ao conservadorismo. Além do Brasil, com o presidente eleito Jair Bolsonaro, outros países já contam com governos ligados ao pensamento direitista. Para a cientista política Priscila Lapa, o fator principal na região é o desencadeamento de crises econômicas, sobretudo, além de fatores internos dos países, ou seja, sem terem relação com os outros. “Na América Latina, o que impulsiona essas novas ondas é a proliferação de crises econômicas e políticas. A região tem tido um momento de forte instabilidade com a ascensão do conservadorismo. Além disso, existem a peculiaridades dos países. A Argentina passa por fragilidades na economia, o Paraguai e o Peru também e o Brasil tem momento de descrença na política, crise e alta da violência”, disse Priscila.


A Argentina passou por eleições presidenciais em 2015, quando o atual presidente Maurício Macri, de centro-direita, foi eleito em um pleito acirrado, sendo a primeira vez em que um líder de tal espectro político chegou ao poder em eleições livres sem o apoio de uma ditadura ou com fraudes. A vitória de Macri pôs fim a 12 anos de governo de esquerda, com Nestor, já falecido, e Cristina Kirchner. No Chile, o conservador Sebatián Piñera, que já tinha sido presidente de 2010 a 2014, voltou ao cargo para suceder Michele Bachelet, de centro-esquerda, em dupla alternância política nos últimos 12 anos no país.


Os Estados Unidos são outro exemplo para o movimento multinacional à direita. Em 2016, Donald Trump desbancou o favoritismo de Hillary Clinton, apoiada pelo então Barack Obama, e venceu as eleições. O republicano perdeu no voto popular, porém o sistema de votação estadunidense exige a votação de delegados dos estados e, na proporcionalidade realizada, o atual presidente desbancou Hillary. Trump foi eleito com um discurso de que, eleito, implantaria rigidez na imigração em massa, criticou a política externa dos Estados Unidos e a relação com aliados. “O que atinge os Estados Unidos também atinge a Europa. Trump falava na campanha sobre a implantação de um muro com o México e a defesa dos valores do país, incentivando o nacionalismo e a defesa dos interesses americanos. Por isso, ele é uma referência. Além disso, o fator das redes sociais também foi influente na campanha”, destaca Priscila Lapa. Até hoje, ainda perduram suspeitas de interferência da Rússia nas eleições dos EUA em favor de Donaldo Trump com ação de robôs na implantação de notícias falsas contra a candidata do partido Democrata, Hillary Clinton.


APESAR DA RESISTÊNCIA, EUROPA TAMBÉM NÃO ESCAPA


Atingida pela crise imigratória e pelo colapso financeiro de cinco países, a Europa passa por momentos de disparidades políticas, algo que evidencia uma fragmentação ideológica. Portugal, Itália, Espanha, Grécia e Irlanda foram os países mais atingidos pela crise de se iniciou no começo da década e a taxa de desemprego cresceu nos cinco países e fez aumentar o déficit nas contas públicas. Com o atual momento de crise imigratória, por conta das guerras civis na África, a opção imediata dos refugiados, por conta da aproximação geográfica, foi se deslocar para o território europeu. Essa sucessão de fatores fez com que fosse estimulado por membros da extrema-direita o discurso de que é preciso aumentar a rigidez na entrada de pessoas na Europa porque parte da população estaria sendo atingida, por exemplo, pela ocupação de vagas de emprego por parte dos estrangeiros.


“Esses processos de onda de valores políticos são movimentos da conjuntura de surgimento de valores. Na Europa, tem-se a questão humanitária das imigrações, relações de fronteiras com o Oriente Médio e a África e isso tem provocado uma defesa do próprio território por parte do povo europeu no sentido de fechar fronteiras e há muito medo de descaracterizar as economias dos estados europeus”, pontua a cientista Priscila Lapa. Nesse sentido também, segundo ela, políticos que pregam o discurso similar ao que está em voga no sentimento popular terminam se beneficiando.


Dinamarca, Noruega e Finlândia são países que são comandados pela centro-direita, inclusive possuindo economias estáveis, apesar da crise que atingiu boa parte da Europa na década. Mesmo com o avanço perceptível no planeta, há pontos de resistência no continente europeu. Na França, nas eleições para presidente, Emanuel Macron, com perfil de centro, venceu com 65% dos votos na disputa de 2º turno contra a líder da extrema-direita Marine Le Pen. Só o fato de os franceses terem uma conservadora no segundo turno do pleito foi considerado um avanço do viés ideológico de direita no país. O partido de Le Pen também conquistou mais assentos no Parlamento em relação às eleições passadas. Já na campanha do 2º turno no Brasil, Le Pen criticou Jair Bolsonaro por suas posturas em relação às falas do presidente eleito sobre mulheres e homossexuais: “Ele tem dito coisas que são extremamente desagradáveis, que não podem ser transferidas para nosso país, é uma cultura diferente”.


Na Alemanha, o partido de direita, adversário da primeira-ministra Angela Merkel, obteve 92 cadeiras no Parlamento, ou seja, 12,6% do total, a maior representatividade no período após a 2ª Guerra mundial. A ascensão pressiona Merkel a fazer um governo de diálogo, diante do iminente risco de polarização política entre pensamentos opostos ainda durante o governo, que pode culminar em uma reviravolta popular no próximo pleito. Para Priscila Lapa, as pessoas avaliam, sobretudo, o instante em que as eleições são realizadas. “O momento da crise é o que as pessoas levam em conta principalmente e basta observar aqueles que defender uma posição em prol da defesa do país soberano, algo que tem prevalecido na Europa, por conta dos fatores externos que abalam a política”, conclui a cientista política. Mais detalhes a seguir:


ARGENTINA

Nas eleições de 2015, os argentinos elegeram Maurício Macri, de centro-direita, para a presidência, quebrando a hegemonia de 12 anos dos governos Nestor e Cristina Kirchner, ambos de esquerda. Macri prometeu ajuste fiscal e reformas econômicas no país. Hoje, a Argentina passa por desvalorização da moeda, desemprego e avanço da inflação.


PARAGUAI

O Paraguai é o país da América do Sul que passou por eleição mais recentemente, antes do Brasil. Em abril, o conservador Mario Abdo Benítez foi eleito para o cargo em disputa acirrada com o liberal Efrain Alegre, que era coligado a partidos de esquerda. Desigualdade, pobreza e corrupção ainda são desafios para o presidente. O último momento em que a esquerda esteve no poder foi com Fernando Lugo, que não concluiu o mandato, de 2008 a 2012.


PERU

Com políticos atingidos por escândalos de corrupção, inclusive com pagamentos de propina por parte da Odebrecht no país no mesmo tempo em que o Petrolão ocorria no Brasil, o Peru está instável politicamente. Nas eleições de 2016, dois candidatos de direita foram para o 2º turno: a derrotada Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, com governo marcado pelo autoritarismo, e o atual presidente, o economista Pedro Pablo Kuczynski.


CHILE

O Chile tem um fenômeno pouco visto em outros países. De 2006 a 2022, o país terá revezado o poder em alternância da esquerdista Michele Bachelet e o conservador Sebatián Piñera. Ele é o atual presidente, foi eleito em 2010 e novamente assumiu o cargo neste ano de 2018. O país tem como trunfo os bons índices educacionais, com 97,5% da população alfabetizada, índice que não mudou mesmo com a mudança de ideologias no poder. Nos últimos 30 anos, o PIB do país aumentou cinco vezes.


FINLÂNDIA
A Finlândia é uma república parlamentarista. O país tem um dos maiores indicadores socioeconômicos e não passa por instabilidades políticas. Neste ano, o presidente Sauli Niinisto, de direita, foi eleito com mais de 64% dos votos. O modelo liberal econômico está em implantação no país e, para a maioria da população, é visto como bom. A Finlândia é um dos países menos afetados pela crise migratória no continente europeu por conta, inclusive, de sua localização geográfica, no extremo-norte da Europa.


NORUEGA

Considerado o país mais feliz do mundo, e com o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), 0,953, o país passou por eleições em 2017. O país é parlamentarista e a primeira-ministra é Erna Solberg, de direita. As últimas eleições foram acirradas e o partido de esquerda do país conquistou quase metade dos assentos. Mesmo assim, com a maioria conservadora, Solberg foi mantida no cargo.


ESTADOS UNIDOS

Com um discurso anti-imigração e em defesa do patriotismo estadunidense, Donald Trump começou a disputa em 2016 como um aventureiro. Cresceu nas pesquisas, mas, mesmo assim não era considerado um risco. À medida em que o pleito passava, o então candidato demonstrava força nas ruas do país não apenas com militantes do Partido Democratas. Na votação popular, Trump foi derrotado por Hillary Clinton, apoiada pelo ex-presidente Barack Obama, mas venceu na disputa dos delegados e a proporcionalidade dos principais estados pesou.


HUNGRIA

O primeiro-ministro Viktor Orbán, de extrema-direita, foi eleito com 49% votos nas eleições de abril deste ano. Ele se apresentou, durante a campanha eleitoral, como o grande defensor e o salvador dos valores cristãos tradicionais. O político também defende o forte patriotismo, criticando inclusive divisões na União Europeia. No país, minorias são oprimidas e outros países não aceitam a postura húngara, reivindicando inclusive o direito de voto em alguns temas do conglomerado.




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