( )

Terra arrasada no 2º turno das eleições entre Bolsonaro e Haddad

MANOEL NETO

A disputa do segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad evidencia aquilo que vem se mostrando uma tendência nas eleições posteriores ao processo de redemocratização, em 1989: a polarização. Com a pulverização das candidaturas, esperava-se que o establhisment fosse dissolvido e nomes do chamado “centro”, sem envolvimento direto com extremos, pudessem emergir. Visão errada. O pleito coloca frente a frente, mais uma vez, uma disputa de extremos e entre candidatos que, embora não tão conhecidos, já são nomes antigas na política. E esse embate, ao que tudo indica, será um completo deserto de ideias.

Jair Bolsonaro, político profissional há 28 anos, mostra-se como o novo. Surfando na onda do anti-petismo, o ex-deputado carioca procura lançar a bandeira da nova política, prometendo quebrar com as negociatas de cargos e com a corrupção sistêmica que assolou a máquina pública na última década (mas não só nela). Sua intensa atuação na defesa dos valores tradicionais da família e as declarações polêmicas também foram uma constante na pavimentação do terreno até aqui, servindo como munição para que, bem visto ou não, o capitão reformado granjeasse um grande apoio na preparação do terreno para a corrida presidencial. Falta, contudo, ao projeto do “novo” Brasil de Bolsonaro, talvez, uma dose maior de consistência, pois o candidato, que defende uma estruturante reforma nos pilares econômicos do país, lançando o liberalismo como lema, esquece que nunca prestou sequer um dia de trabalho para a iniciativa privada, onde João Amoêdo e Henrique Meirelles, por exemplo, construíram carreira. Muito pelo contrário: o candidato do PSL, desde que entrou para a reserva, viveu a vida toda às custas dos vultosos privilégios pagos aos parlamentares, os quais ele insinua, hoje, dentro da onda liberal, querer combater. É difícil acreditar que ele saiba três ou quatro princípios do liberalismo, parecendo, muito mais, um discurso demagógico. 

Fernando Haddad, herdeiro de Lula, em meios aos escombros da destruição do PT. Com o partido assolado até o nariz nos escândalos expostos pela Lava-Jato, o ex-prefeito de São Paulo foi a saída encontrada pelo PT para disputar a corrida presidencial. Com forte atuação do ex-presidente, condenado e preso por corrupção, a candidatura petista destruiu e esvaziou as ambições de outros candidatos de campo político semelhante, como Ciro Gomes, que obteve mais de 13 milhões de votos e terminou a disputa em 3º lugar. Não parece coerente, nos dias de hoje, que o partido, depois de 14 anos no poder, advogue bravamente por reformas que eles tiveram tempo e capital político para realizar. A grande verdade é que Haddad, embora tente se descolar, não consegue se desvencilhar da figura de Lula, uma vez que foram os votos desse nicho petista que o levaram ao segundo turno. A candidatura do PT, hoje, representa apenas aquilo que o partido, nos últimos anos, vem demonstrando ser a tônica da sua existência: a sede de poder.

É nesse cenário nefasto que ocorrerá o embate do segundo turno, marcado para o próximo dia 28.  A única certeza que fica é que, qualquer que seja o vencedor, muitas incoerências ainda precisarão de esclarecimento.

Topo